Da incapacidade em dividir a poltrona do ônibus
Assim como o convívio se torna difícil nos elevadores, que direi dos coletivos? Nestes, pior que os elevadores, o convívio com os outros é quase obrigação. Se sentam ao meu lado e, sem querer, compartilham dos seus infernos comigo (não há paraísos nos outros). Há momentos em que após anos de treino, pode-se abstrair a presença do outro quando as poltronas estão quase todas ocupadas. Entretanto existem situações-limite que ocorrem com muita freqüência nesse tipo de transporte público.
O ônibus se encontra praticamente vazio. A paz reina temporariamente. Pode-se olhar na janela, ler um livro, dormir. Mas eis que surge um ser – e ele pode ser gordo, magro, homem, mulher, criança, ET – que após girar a catraca resolve escolher de uma dezena de poltronas vazias justamente aquela em que eu, Masimo Trofisi, me encontro aconchegado. A presença da pessoa, a possibilidade dela encostar uma simples parte do seu corpo no meu, território sacro, desperta calafrios, suores, palpitações. Sobretudo me incomoda mais quando esse tipo de ser toma uma atitude. E não digo do ato de abrir e ler um jornal, retocar a maquiagem, falar no celular ou dormir, simplesmente. Essa atitude, tomada deliberadamente contra mim é o de NADA FAZER. Se dizem que quando alguém fez marcas no chão e decretou – Isso é meu – foi então o primeiro ladrão de toda a História (bem, me julguem como o ladrão mais mesquinho de toda História), que direi de um cidadão que, ao marcar com a sua bunda o território colado ao meu ainda se dá o direito de fazer uso do nada a fazer até então privilégio conferido a mim? Alguém me responda, além de ocasiões esporádicas de um nada a fazer solitário em ônibus e elevadores onde mais posso fazer isso impunemente? Ainda bem que escolhi a profissão certa. Que seria de mim se fosse cobrador ou ascensorista?

Escrito por Masimo Trofisi às 19h01
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