Da incapacidade em abrir saquinhos de supermercado

É fato: a pesquisa e o aperfeiçoamento de materiais têm crescido dia a dia. São pensadas novas embalagens que se acomodam melhor nas nossas despensas, que não são escorregadias, embalagens à prova de crianças curiosas, mais econômicas...
Certo dia, no metrô, escutava uma senhora balzaquiana comentar estupefata a evolução dos modelos de absorvente higiênico no país. Mais finos, com abas laterais para evitar vazamentos (e eu pensava em algum tipo de aba lateral que evitasse os vazamentos pós-chuva lá em casa), em modelos apropriados para cada ocasião: absorventes para reuniões executivas, para festas com traje esporte fino, para cavalgadas destemidas ao luar...Eu, mesmo homem e orgulhoso dos meus hormônios ultra-masculinos, pensei por um momento como sou pouco privilegiado pelo meu sexo em desconhecer as vantagens de sangrar todo mês e conhecer todas as vantagens da infinidade de modelos de absorventes higiênicos disponíveis no mercado.
Pois bem, mesmo com tantas inovações tecnológicas - de foguetes e carros a absorventes – existe algo que me rouba o prazer em ir ao supermercado: são os saquinhos plásticos. Eles me roubam toda a vontade de embalar um cacho de bananas ou alface em promoção. Ciente do risco do vexame, me dirijo ao setor de frutas e legumes – a milésima tentativa para uma vida saudável. Destaco um dos saquinhos, escolho pacientemente qual pimentão devo levar e...passo a acreditar que é impossível colocar aquele pimentão vermelho no saco plástico. Passa a virar, então, uma questão de honra. Uso toda a força dos dedos, jogo o plástico no chão e danço twist. Depois de meia hora de ginástica involuntária e exausto, uma senhora octagenária se dirige aos pimentões, escolhe os que mais lhe agradam, coloca no famigerado saco plástico e sai tranqüilamente em direção ao caixa.
Nesse momento eu, um Neandertal em frente a máquinas de última geração.
Já que o mundo moderno me oferece tantas vantagens, cedo em grande estilo. Nada melhor que o miojo nosso de cada dia.
Escrito por Masimo Trofisi às 19h46
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