Da incapacidade de sonhar

Ele pediu para que abrisse a boca – Diga 33. Disse 33, trinta e três vezes sem-vezes dito. Não havia nada lá. Infecção, pus, restos de madrugada sobressaltadas. Nada.
Diagnóstico: eu não sonho, simplesmente. O médico recomendou remédios caros na letra de garatujas, grafismos, típica de médicos. De médicos que sonham, suponho. Fui.
Não sonhar: doença rara, de acordo com uma enciclopédia. Sorteado entre um milhão de pessoas na loteria de sortudos insones. Sorte às avessas. Para aqueles que, assim como meu médico sonham em demasia, um aviso: fiquem contentes com suas manifestações do inconsciente, com suas imagens oníricas em Technicolor, animações em 3D, roteiros de Fellini ou fotos de Man Ray disponíveis gratuitamente nos recônditos do seu inconsciente.
O pesadelo de não-sonhar com olhos despertos – explico e não explico - é ter de fugir de desconhecidos quando o sinal se fecha. É entrar numa barbearia no ano de 1916 e pedir para que lhe cortem as orelhas. É ser xingado em praça pública por estranhos por um crime kafkanianamente não cometido.
E não há a remota e reconfortante possibilidade de acordar e dizer ao leitor: foi tudo um sonho, meu caro.
Escrito por Masimo Trofisi às 08h29
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