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A vida contemporânea em pílulas - Modos de usar
 


Da incapacidade em fazer a corte – parte 2

 

Uma ode ao macho

 

 

           

                 De reverências, a espinha fica torta. Já disse e repito. Mulheres não são capazes de entender e não há pedagogias, palmatórias que as faça compreender. Estava eu com uma jovem razoavelmente bonita e sofrivelmente inteligente circulando a esmo pelas ruas acompanhados pela fumaça de carros e de meus cigarros. Um quase nada no bolso de um lado e furos imensuráveis do outro. Faminto, me dirijo a um estabelecimento que mamãe chama de pé sujo. Um lugar cujo bom atendimento e o serviço de iguarias inigualáveis sempre pede, digamos assim, meu eterno retorno. Peço o de sempre: risole. A jovem analisa o lugar com um rigor científico. Levanta hipóteses sobre a aparência do meu risole e dos demais salgados expostos. Levanta hipóteses sobre o pano de prato que decora o pescoço do simpático atendente. Cria teorias que unem óleo de soja, ratos, baratas, esgoto a céu aberto e emissão de gás carbônico. Imagina um sem-número de coisas estapafúrdias. Eu não fui capaz (como sempre) de arrumar o quebra-cabeça desengonçado que ela mesma inventou.

 

            Ela, a minha jovem razoavelmente bonita e sofrivelmente inteligente se levanta. Erguem-se os olhares. Toilete, ela pergunta e não banheiro. Espero, como meu risole, peço outro e converso com a velha prostituta que bate cartão todos os dias. Mesmo horário, mesmos pedidos. Freqüentar pés sujos é assim. Encontro de almas penadas, sedentas por risoles, que se identificam por terem rasgado RG e CPF, que não votam nas eleições e cagam para o processo de abertura democrática que tem se arregaçado desde os idos de 80. Em 80 éramos jovens, esperançosos e um pouco mais que sofrivelmente bonitos e razoavelmente inteligentes.

           

            Mulheres demoram nos banheiros. Indiscutível e matéria especial para cinco “Fantásticos” seguidos. Mas ela não volta. Novamente a minha vida segue como um filme mal roteirizado e dirigido. Letra de música da MPB mais sem-vergonha. Deja vu. Ela sai. Ela vai. Eu fico. Eu, meus risoles, a TV no futebol e o meu sossego de uma noite bem acompanhada de mim mesmo.



Escrito por Masimo Trofisi às 12h17
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Da incapacidade em fazer a corte  - parte 1

 

Uma ode ao macho

 

 Achille Devéria

 

            Pavões não se preocupam com chocolates e serenatas. No entanto, fazem a corte. Animais de toda a espécie fazem. Os homens, inclusive. Mas antes que isso vire uma música de Cole Porter e tudo termine em “let´s do it, let´s fall in love”, coloco eu um ponto final nesta história e tudo se resume apenas em “let´s do it”.  Deus resumiu as coisas de uma maneira muito simples: crescei e multiplicai-vos. Mesuras, lisuras, reverências que estouram as vértebras, elogios ao novo corte de cabelo, ao vestido. Nada disso estava escrito. Então, sejamos realistas: de que serve a corte? De que serve o ar displicentemente Mastroiani, Clark Gable, Brad Pitt, se todos eles provavelmente dão de costas e dormem?

           

            Afinal, de que serve a corte?

 

            Encantamento? Ora, chame um prestidigitador, um mágico. Eles fazem coisas encantadoras com coelhos, cartas de baralho, pombos doentes, seres levitando. Não nascemos para que os nossos pés sejam tirados do solo, levados para o alto e depois despencar queda livre, precipício, abismo. Somos bípedes bem adaptados ao solo. E não precisamos de maiores ilusões. As que tínhamos todas elas foram jogadas na última nota de um real dada a maior e melhor das prostitutas.

 

Tome absinto. Beba chás de cogumelos. Embora tudo isso possa ser tão repugnante quanto. Mas não faça a corte. E nunca, nunca, caia no erro feminil de cair de encantos, suspirar, ajoelhar e agradecer aos céus o desejo passageiro de estar no inferno. Não precisamos de cerimônias primitivas. Somos uma sociedade do aqui-agora, objetivos-metas-resultados, rápidas conexões banda larga, delivery e obediência. Mulheres, sirvam bem para servir sempre. Não temos os mesmos 60 segundos do século XVIII.

 

Deus não percebeu. Nem os pavões. Mas eu vi o amor acenando no último comercial de cerveja.

 

               

Escrito por Masimo Trofisi às 17h33
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