Da incapacidade em não contar os finais dos filmes
Eu adoraria ter contado as desventuras de H. Bogart e I. Bergman para espectadores raivosos em 1942
Reza a lenda da sétima arte que não se pode, de maneira alguma, contar os finais dos filmes. Promessas de agressões físicas, ameaças contra mães velhas e indefesas foram feitas pelos ditos amantes da sala escura de cinema a este humilde funcionário de repartição pública entregue ao deus dará. Parti do seguinte pressuposto: todos sabem que Cristo é crucificado no final e há sempre um desenlace redentor para mocinhos e mocinhas. Daí surgiu um de meus passatempos preferidos.
Costumava assistir aos filmes logo na semana de estréia. Evitava sessões aos sábados, cheias de namorados e gente em geral. Quarta-feira à tarde era ideal. Velhinhos roncavam e mais de uma ou duas pessoas estavam lá realmente interessadas no filme. Na semana seguinte, retornava ao cinema. Mesmo filme, dia diferente (de preferência um belo sábado à noite, cheio de namorados). Carregava um mimo de mamãe escondido numa mochila. Um pequeno megafone. Discreto. Como até então eu não era submetido a vistoria e não estava na lista de “Procurados” dos funcionários de cinema, ninguém notava o volume da mochila. Passado algum tempo de projeção, com as pessoas acomodadas, beijos entre casais e gente atendendo celulares, disparava a minha arma mortal contra cinéfilos. Meu megafone e meu espírito de porco. Eu prestava um grande serviço à humanidade. Poupei as pessoas de lágrimas intermináveis de filmes melodramáticos de meia tigela. Poupei sustos. Poupei até os finais felizes. Incompreendido, como sempre. Tive vaias recompensadoras. Porque não nasci para o aplauso e para as luzes dos holofotes. Encarei policiais, delegacias de polícia e lutei bravamente contra um guarda-chuva de uma velha senhora. Oh, o preço da genialidade...
Mais tarde, com internet, poupei a primeira ida ao cinema. Conseguia todas as informações em sites e com contatos excusos. Mas o megafone era o mesmo. O espírito de porco também. As salas de cinema cresceram e meu terrorismo se alastrou no Norte-Sul Leste-Oeste da cidade sem dó nem piedade da cinefilia paulistana. Passei a ser reconhecido nas ruas e tive de apelar para disfarces. E, olhem, sou um sujeito comum, difícil de ser percebido. Mas a ira da parcela pseudo-culta, freqüentadora de dez minutos de sessão da Mostra internacional de Cinema era implacável. Ao mesmo tempo, artistas me convidavam para novas sessões na casa do caralho e isso começou a render (poucos, vá lá) dividendos. Surgiram clones e fã-clubes com a febre trofisiana. De Cruz Alta a Boa Vista, não havia cinema que não fosse atacado pelo megafone da discórdia. Virei quase uma celebridade instantânea. Uma pessoa muito capaz de fazer coisas. Queriam que virasse Masimo Trofisi, o capaz.
Resolvi encerrar minha atividade de terrorista do Espaço Unibanco e de Salas Multiplex. Minha última sessão de cinema foi relativamente tranqüila. Levantei-me, agarrei o megafone. As luzes acenderam e o público entrou em pânico. Fiz que ia dizer algo. Não disse. Corri para as portas anti-pânico e para o primeiro ônibus que passasse na rua. Nunca mais me reconheceram na rua. Os artistas desistiram de mim e de meus happenings revolucionários. Voltei a assistir aos mesmos filmes que já conhecia. Porque não quero saber, sob hipótese alguma, os (un)happy ends dos lançamentos enfileirados na prateleira da locadora.
Escrito por Masimo Trofisi às 23h26
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Parabéns para mim
Mamãe não poderia ter maior motivo de orgulho ao ver o seu único rebento nascer no dia mais glorioso do ano. Curiosamente, sou o ser mais incapaz de mentir. É a mais pura verdade, garanto. Mas isso é tema para um novo post que não deve ser escrito hoje. Afinal, mereço neste dia todas as honrarias, jarras de ki-suco e brigadeiro que mamãe faz esplendidamente.
Um abraço por trás a todos os meus dois leitores que seguram a barra deste ilustre blog. Não pensem, no entanto, que estão convidados para a festa na minha quitinete.

Escrito por Masimo Trofisi às 20h23
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