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A vida contemporânea em pílulas - Modos de usar
 


Da capacidade em irritar – parte 1

 

Os primeiros dias de Masimo Trofisi no seu novo emprego e a primeira vítima de todo seu ódio, rancor e desprezo: um jovem Office boy.

 

 

Alexandre Órion

 

            Ele era jovem, com marcas de espinhas na cara e um ar levemente capa da Mad. Desajeitado, como boa parte dos jovens, não sabia onde enfiar braços, mãos e pernas que cresceram do dia para noite e deram um belo olé nas suas atividades cerebrais. Era seu primeiro emprego. Eram os meus primeiros dias no novo emprego

 

            Pensei. Era perfeito.

 

            Imediatamente contratei o jovem como Office boy para trabalhar na empresa O inferno são os outros. Ele seria uma excelente cobaia para meus projetos futuros e um pequeno divertimento inicial. Office boy é uma atividade que por natureza é irritante. Tanto para os jovens rapazes que cruzam a cidade e enfrentam filas das piores espécies (mas sempre dão um jeito de enrolar o chefe com a desculpa do trânsito para dar um oi na namorada, comer uma coxinha com catupiry e beber uns copos de cerveja) quanto para os transeuntes quase vítimas das barbeiragens das motos. Ele parecia ser tonto e ingênuo o suficiente. Quase um João bobo de carne e osso a espera de umas porradas.

            O salário era ridículo. Benefícios zero. Carteira assinada? Só depois de três meses. E olha lá.

 

            Passei ao meu João bobo o endereço de uma entrega (de uma caixa vazia) e todas as coordenadas. A rua não existia, mas eu o enviei para um bairro além da ponte do Socorro em um horário pouco aconselhável. O bairro também era muito pouco aconselhável também. Certifiquei se ele tinha celular e anotei o número. Estabeleci um tempo para a entrega: meia hora.

 

Era só o começo da epopéia do pobre diabo.



Escrito por Masimo Trofisi às 12h43
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Classificados: precisa-se de incapazes

 

Como a morte pôde render a Masimo Trofisi  um novo emprego e a descoberta de sua única capacidade.

 

 

Ainda colocarão minha foto como funcionário do mês

 

            Para mim, velórios são um importante acontecimento social. Enquanto se configura como um momento de profunda tristeza e de derramamento inútil de lágrimas para parentes e amigos do defunto em questão, para mim os velórios atestam uma coisa: o fim, mesmo que ainda breve (pois no mesmo segundo deve ter nascido mais uma ninhada de homo sapiens), de uma relação de parasitismo de um ser humano com o mundo. Pois sim, não pensem os mais otimistas que estamos numa relação simbiótica com as coisas. E não penso na natureza, apenas. 

 

            Eu, Masimo Trofisi, consciente do meu parasitismo, visito meus semelhantes na ocasião do adeus final. Porque muito possivelmente não iremos compartilhar dos mesmos seres que irão se fartar de nossas carnes pútridas. Aproveito, principalmente nos velórios realizados nas cidades do interior e das classes mais abastadas da sociedade da boca livre oferecida. Mas não pensem, sob hipótese alguma, que me faço às vezes de carpideira.

 

            Em uma dessas ocasiões fúnebres, me deparei com um ser tão ou talvez mais incapaz e sórdido que eu. Comentamos sobre o mau gosto reinante na sala e nas escolhas dos figurinos (pois sim, pareciam figurinos) das senhoras presentes. Falamos das velas, das flores, da choradeira geral, de esposas e ex-amantes se jogando no caixão, da infame gravata borboleta roxa do defunto em um volume que passou a incomodar os presentes. Nada daquilo era comovente. Pelo contrário. E, ao se tratar de um defunto qualquer, um ex-companheiro de pé sujo, bebedor, cheirador e enrolador de mulheres cujo nome não convém ser mencionado, de maneira alguma não poderíamos comemorar seu falecimento com lágrimas e lenços de papel. Claro que não. Fizemos à moda do defunto, com muita fanfarronice. Chamamos prostitutas, agiotas a quem ele devia, mendigos e  todos os vagabundos do bairro  para dançar e cantar sobre o caixão de madeira barata que encomendaram ao nosso pobre ex-colega.

 

            Fomos expulsos, é claro. Por difamarmos a reputação de um santo homem e abalarmos um momento delicado para a nobre família.

 

            Pessoas de pouco espírito, eu diria.

 

            Entretanto, esse acontecimento memorável serviu para abrilhantar a minha vida profissional. Há muito estava entediado com o meu serviço burocrático como funcionário público. Sei que me aproveitei, e muito, desses momentos de pleno tédio para comentar aqui uma ou duas incapacidades minhas.  Acredito que em todos os meus anos de funcionalismo público cuidei bem de minhas tarefas. Afinal, pouco fiz. Mas mal eu podia imaginar que uma tarde de fritar cérebro de mulas e de comemoração da morte de um ex-bebum poderiam me dar o emprego dos sonhos.

 

            O espírito de porco com quem conversei durante o velório é dono de uma empresa notável. Responsável por fazer coisas geniais e originalíssimas, eu diria. Depois da minha demonstração ainda que involuntária, pois fiz tudo aquilo por prazer e não por um novo emprego, eu ocupo agora o cargo de gerente. Pasmem, leitores do blog. Sou gerente. Mamãe ficou contentíssima e, por pouco, quase não se desequilibrou de seu andador e caiu do 15o. andar abaixo. O serviço que presto naquela agência é o dar lições sobre como irritar as pessoas. Isso mesmo, foi descoberta a minha grande capacidade. Se um dia algum de vocês se incomodar com o suporte técnico de qualquer coisa, com multas da CET cobradas indevidamente, gerentes de banco e qualquer outra coisa que a vida contemporânea possa lhe presentear com dores de cabeça, tenha uma certeza. Há ali o dedo de Masimo Trofisi.

 

OBS: Ainda estou disponível para animações em velórios. Caso queiram me contratar, falem com mamãe. Ela tem cuidado da minha agenda com esmero e já tenho alguns eventos agendados para este mês. Posso ainda reunir trabalho e lazer: tenho um farto material sobre como irritar pessoas até a morte. Talvez faça desse objeto abjeto de estudo para um doutorado.



Escrito por Masimo Trofisi às 21h15
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