Da capacidade em irritar – parte 2
Masimo Trofisi dá continuidade à triste história de F, o office boy usado como cobaia nos fins da Zona Sul de São Paulo, entremeada por alguns goles de uísque, coxinhas, putas do centro e um bocado de verborragia.
Observava atentamente minhas unhas encravadas no pé. Poderia ter saído do serviço sabendo que, como gerente da O inferno são os outros, eu poderia aparecer e desaparecer como número de mágica. Como uma adolescente à espera da ligação do namoradinho, eu aguardava o telefonema do Office boy clamando por ajuda em um local propício como a Ponte do Socorro.
Não tardou muito para que ouvisse um relinchar do outro lado da linha. Era o pobre.
F - Seu Masimo, não consigo passar daqui.
M - Quem fala?
F - Sou eu, seu Masimo, F, Office boy.
M - Desculpe, F, a ligação está horrível. Poderia falar mais alto?
Mentira minha. Eu podia ouvir palavra por palavra daquela aberração.
F - (mais alto) Eu estou em um lugar esquisito, seu Masimo. Não vou entrar aqui.
M – Não entendi.
F – (gritando ainda mais alto) Eu não vou entrar aqui! Não vou!
M – Como?
F - ...
Escrito por Masimo Trofisi às 22h13
[]
[envie esta mensagem]

M – Vai sim! Pode ser o lugar onde o vento faz a curva, onde Judas perdeu as botas, pode ser a casa do caralho, mas você vai se enfiar onde eu mandei! Não adianta dizer mais nada. Nem chorar, pedir colo da mãe. Sei passo a passo da cena ridícula que vai se desenrolar a partir de agora: vou te mandar a merda e desligar o telefone. Vou me dirigir para a garrafa de uísque e esvaziarei a metade. Olharei minhas unhas encravadas em cima da mesa pela milésima vez. Eu gosto das minhas unhas encravadas. Vou mijar. E, assim que estiver pronto para por fim a metade cheia da garrafa, você vai ligar de novo arrotando coca-cola e coxinhas com catupiry. Perguntarei: e não passou no centro para aquela punheta bem dada por uma puta velha e experiente? Não? Não tem aproveitado bem a sua função? Eu lhe dou uma moto, um roteiro facilmente de ser enrolado e a oportunidade de ver um mundo além de uma tela de TV ligada no seu videogame preferido e você vai me dizer que não foi ao centro da cidade comer as putas velhas, as putas novas, as mulheres sem Photoshop e de, quebra, alguns churrascos gregos e sucos grátis? Tudo isso é perfeitamente compatível com o seu salário e condição de Office boy. Escute, eu sinto cheiro da tua merda subdesenvolvida daqui. E foda-se onde você está de verdade. No Campo Limpo, em Higienópolis, na av. Paulista, na Aurora ou no cinema à espera da estréia do seu blockbuster adolescente com um pacote de pipocas. Eu sinto o cheiro da sua merda, seu puto. Quer saber o final da cena? Vou dizer na melhor voz falsamente paterna mais uma coisa. Um conselho de pai para filho, que quer o seu melhor. Meu garoto, você teve poucos professores filhos da puta o suficiente para dizerem o que vou dizer. A vida é uma merda agora? Não se preocupe. Piora. Mas estarei ao seu lado. Admirando tudo ao longe. Assim que você terminar de ser engolido, termino minha metade cheia da garrafa de uísque.
Eu não disse tudo isso. Inventei para impressionar os leitores.
F – Seu Masimo, sou eu.
M – Vermes aprenderam a falar agora?
F – Bla bla bla bla bla.
M – Bla bla bla putaqueopariu bla bla bla.
F – (quase chorando) Bla bla bla! Bla bla bla!
M – Bla! Volte para cá imediatamente.
F – Eu não sei como voltar, blablazinho.
M – Bla bla bla! Bla bla bla bla, merda?
F – Bla bla bla.
M – Ótimo. Quero só mais uma coisa.
F – Que?
M – CO-XI-NHA COM CA-TU-PI-RY.
Sinto a fúria juvenil na tecla end do celular. Foi um bom passatempo para minha primeira semana. Só faltava uma coisa.
Uísque.
Escrito por Masimo Trofisi às 22h13
[]
[envie esta mensagem]

|